Sexta-feira, Maio 29, 2009

O Brasil é bom, mas...

Década de 60 ou 70...

Pela manhã acorda com o sol tocando o seu rosto, estabelecendo a rotina dos seus dias iguais, virtuosos. Na mesa o café acompanha as noticias dos jornais que alardeiam os atos subversivos ao sistema governamental: furtos, assaltos, seqüestros, etc. A indignação se repete como toda a luz do sol que o acorda pela manhã, tão acostumado, a sua vida é boa. Seus vizinhos fazem do bairro um agradável lugar para se morar, há segurança por todas as ruas, há desocupados nas esquinas gozando do seu labor. É ensurdecedor o silêncio que se esconde por trás dos rostos tão ambíguos e desconfiados, que se revela no escuro e aos ouvidos dos entes confiáveis. Esta vida é normal, no trabalho o assunto é a última rodada do campeonato brasileiro. O futebol, a grande paixão deste povo, a bola preta-e-branca que rola no gramado acidentado, que corre de pé-em-pé, que alisa o barbante e inebria a nação de torcedores partidários da satisfação comum. É seleção brasileira, é Pelé, o melhor do mundo.

Esta, comum, vida era completa, cada qual seguindo o seu papel dentro da sociedade. Família, trabalho, diversão, amigos, segurança e dinheiro eram os fundamentais alicerces que uma vida poderia ser construída. E quem disse que poderia ser diferente? Quem diria que a troca do seu tempo por dinheiro era injusta, a mais-valia? Quem poderia gritar que a segurança das ruas era conseqüência de um estado livre de direito inexistente? Quem acreditaria que a liberdade era estar preso na fantasmagórica idéia de que a vida era boa? Quem daria valor para aquele que dissesse que a sociedade era apenas um fantoche manipulado pelo dedo do algoz? Brasil, ame ou deixe-o.
Aqueles que não deixaram, morreram amando uma ideologia que não se seduzia pelo reluzir do ouro. Aqueles que não deixaram por amar, descobriram que a vida normal era muda, e que a libertinagem de agora, certamente, seria reprimida nos tempos passados, de pessoas mudas, exceto nos gritos de gols. Aqueles que ousaram a questionar a vida, se alimentaram da normalidade avessa, lutaram pelo grito, pelo direito, pela vida e o bem viver e viveram fazendo a sua arte longe da sua raízes que estava no estagio de putrefação.


Década de 90 e anos 2000...

O celular anuncia que o dia deve começar, o café a mesa, com um gole de suco e um pedaço de pão pouco importa as noticias do dia, são sempre as mesmas. Pelas ruas dos bairros, o medo. De assalto, de seqüestro, de furtos... Medo dos maus elementos, que nas esquinas espreitam os apressados empregados, que o ponto, precisam bater. Nos rádios e walkmans a música sempre é melhor remédio para as besteiras que se escuta por todos os lugares. Menos dos resultados do futebol. As ruas são movimentadas, as vitrines mais sedutoras, a divisão pensa, a insegurança chama a atenção. Que saudades dos velhos tempos. Meu pai disse, certa vez, que no tempo dele, todos os cidadãos de bem andavam pela rua sem o menor perigo, era seguro. Exceto pelos clandestinos que faziam terrorismos pelas ruas. Mas hoje, olha o que temos, ladrões, desocupados, drogados, trombadinhas e todos os outros males da sociedade que servem apenas para encherem o nosso saco. Sem falar no horário eleitoral, um bando de desocupados, ladrões que querem entrar para a máquina pública e arranjar um meio para desviar os recursos públicos, por este motivo que voto naquele que promete arrumar o muro de casa, ou dar um jeitinho pra encaixar um parente na repartição. Sei que ele vai roubar, mas pelo menos deu uma forcinha pra mim, e eu tirei vantagem disso.

Quem acreditou que um dia alguma coisa iria mudar? A não ser, é claro, alguns personagens?

A ditadura ou a democracia pouco importa para o brasileiro que navega na superioridade consumista e egoísta, em busca de um bem estar pernicioso e complacente da benevolência, que acredita ser justo, pois o suor da sua labuta lhe conferiu este status. Acreditando que a sociedade segue o que é mandado pelo governo, o sentimento paternalista valida o desapego ao ser-político inerente de cada cidadão que goza da vida em sociedade, quer apenas que o ouro brilhe aos olhos dos entes confiáveis e sob meia luz. Que o meu bolso seja o mais cheio. É claro!

Nunca foi dito nada que prestasse nos meios de comunicação, o que tinha o seu valor foi incinerado na condição de subversão, a aquilo que era ilegítimo a essência existencial do ser humano que viver livre, em sociedade, e abraçado com os seus direitos e deveres. Ham? Direitos e quê? Já hoje não existe a fogueira da contradição, há sim, um punhado de personagens que vestem o seu paletó ou seu jeans mais descolado pra validar o seu direto garantido, a expressão, na democracia impotente, manca de um país do futuro de um futuro sem um presente. Feito de passado.

O Brasil é bom, tem de tudo um pouco, mas, se quiser mudar de personagens e se alimentar para um futuro, precisa jogar fora a carne nauseabunda e putrefata que abunda o sofá e que se envaidece e se sente defendida nas novelas e telejornais que dizem cumprir com o seu papel na liberdade de expressão.

Pegue o marcador de gado! Ou cante com Elis!

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