Embotas, voraz Tempo, ao leão as garras sevas;
À terra a engolir dás seus próprios descendentes;
Longeva, no seu sangue, a arder a fênix levas;
Tiras de fero tigre os lacerantes dentes.
Passando, as estações ledas ou tristes fazes...
Que é que, alígero Tempo, acharás infactível?
Um crime não farás, porém, dos mais audazes
Perante o mundo e o seu encanto marcescível:
Não danificarás do meu amor a imagem;
Nunca de ultrajes teus a verás atingida.
E, resistindo-te ela, incólume, à passagem,
Modelo da beleza há de ser toda a vida.
Ainda mais, velho Tempo, ante a tua fúria, terso,
Há de ser meu amor jovem sempre em meu verso.
Shakespeare
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