XI
De toda alegria que a eternidade
de todas as coisas, quer mel, quer fazer, quer inebriante meia-noite e quer
sepulturas, quer o consolo das lágrimas, das sepulturas, quer o dourado
crepúsculo...
Que não há de querer a alegria! É
mais sedenta, mais cordial, mais terrível, mais secreta que toda dor; quer-se a
si mesma, morde-se a si mesma, agita-se nela a vontade de anilha; que amor,
quer ódio, nada na abundância, dá, arroja para longe de si, suplica que
aceitem, agradece a quem a recebe, quereria se odiada; é tão rica que tem sede
de dor, de inferno, de ódio, de vergonha, do mundo, porque este mundo, ah, já o
conheceis.
Homens superiores, por vós
suspira a alegria, a desenfreada, a bem-aventurada; suspira pela vossa
malograda dor. Toda alegria eterna suspira pelas coisas malogradas.
Pois toda alegria se estima a si
mesma; por isso quer também o sofrimento! Ó felicidade! Ó dor! Desfibra-te,
coração! Aprendei-o, homens superiores: a alegria quer a eternidade!
A alegria quer a eternidade de
todas as coisas.
Quer profunda eternidade.
XII
Aprendestes agora o meu canto? Adivinhastes o que quer
dizer?
Eia, pois, homens superiores, entoai o meu canto!
Entoai agora vós o canto cujo título é ‘Outra vez’ e cujo
sentido é “por toda a eternidade”. Entoai, homens superiores, entoai o canto de
Zaratustra.
Homens, excita o
cérebro!
Que diz a profunda
meia-noite?
Tenho dormido,
tenho dormido!
De um profundo sono
despertei
O mundo é profundo,
mais profundo do que o dia pensava.
Profunda é sua dor
e a alegria mais profunda que o sofrimento!
A dor diz: passa!
Mas toda alegria
quer eternidade, quer profunda eternidade!”.
Assim Falou
Zaratustra (Entre as filhas do deserto)

